pinturas do comum e do incômodo . moacir dos anjos


As pinturas de Vânia Mignone são da ordem do incômodo e do desassossego, daquilo que não se sabe ou que não se quer nomear de modo pleno. Há nelas, quase sempre, a presença de figuras humanas sozinhas, apartadas do convívio de alguém mais. São mulheres ou homens situados em lugares aos quais a artista nega identificação precisa; espaços onde não há sequer distinção possível entre frente e fundo, igualados em planos de cores únicas. Recortadas desses lugares por meio de traços grossos, negros e hesitantes, as figuras – envoltas em névoa pictórica densa – aparentam se afogar na claustrofobia de um isolamento físico e afetivo, sem mostrarem, por isso, pesar evidente.

 

Nesses ambientes de dimensão não sabida, as figuras pintadas têm à volta mesas, cadeiras, bancos, vasos de plantas. Menos que marcas do abrigo que uma casa concede, esses elementos mais parecem índices de vidas fundadas em introversão desmedida, nas quais somente cabe e importa o que é próximo e íntimo. A paisagem e a arquitetura não estão, porém, ausentes das imagens criadas: roupas são por vezes adornadas com grafismos que aludem a delicados vegetais e móveis trazem, estampadas em suas superfícies toscamente traçadas, cenas com animais domésticos ou padrões que recordam, por seu tamanho e regularidade, a azulejaria indistinta de paredes quaisquer. São fragmentos de um mundo mais largo traduzidos para o entorno seguro de um cotidiano já familiar.

 

Essas pinturas tornam visíveis lugares submetidos à subjetividade que não são, de outra forma, discerníveis à visão. Oferecem imagens que espelham modos ensimesmados de habitar o mundo e que traem, portanto, o isolamento que marcam a vida comum. Nem por isso há, entretanto, estabilidade nas construções simbólicas que tais situações inventadas engendram, posto que os significados possíveis das cenas parecem estar sempre à beira do desmanche. Colaboram, para tal sugestão de desmoronamento eminente de sentidos, a colisão entre tons de cores que movimentam e aquecem o olhar e narrativas quase suspensas, onde alguma coisa que talvez já não aconteça mais é aguardada ainda.

 

Também a própria maneira como figuras e objetos são pintados – no limite de se deixarem precipitar para aquém do espaço virtual dos trabalhos – põe em risco a domesticidade quieta que as pinturas em princípio afirmam, aproximando o que representam em silêncio do ruído alto do mundo. Para tanto contribui, por fim, o emprego de palavras e números misturados, sem hierarquia discernível, às imagens de várias pinturas. Em vez de servirem como afirmação do que as cenas inspiram, os signos lingüísticos e numéricos usados ampliam, distorcem ou fragmentam o que aquelas indicam, fazendo dos trabalhos da artista plataforma de investigação sem fim preciso.

 

Tal como os textos de Clarice Lispector, as pinturas de Vânia Mignone se acercam apenas do é simples, banal, comum. Misturam com freqüência, ademais, o sonhado e o vivido, como se não houvesse nisso conseqüência alguma, como se fosse mesmo preciso proceder assim. E de modo semelhante ao sugerido nos escritos daquela, é por meio da atenção solitária ao ordinário que a artista busca apontar o que mais importa no mundo. A solidão opressiva a que submete suas figuras parece atestar, contudo – como também descobrem tantos personagens da escritora –, que há demasiado riscos nesse percurso. Somente a cada um, porém – nas pinturas, nos livros, na vida –, cabe descobrir se vale a pena corrê-los ou não.

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